Friday, December 30, 2011
Thursday, December 29, 2011
Outros tempos, outras modas
Sunday, December 25, 2011
No sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva. Nas amadas caras loucas batem e batem os dedos amarelos das candeias. Que balouçam. Que são puras. Gotas e candeias puras. E as mães aproximam-se soprando os dedos frios. Seu corpo move-se pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões e órgãos mergulhados, e as calmas mães intrínsecas sentam-se nas cabeças filiais. Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado vendo tudo, e queimando as imagens, alimentando as imagens enquanto o amor é cada vez mais forte. E bate-lhes nas caras, o amor leve. O amor feroz. E as mães são cada vez mais belas. Pensam os filhos que elas levitam. Flores violentas batem nas suas pálpebras. Elas respiram ao alto e em baixo. São silenciosas. E a sua cara está no meio das gotas particulares da chuva, em volta das candeias. No contínuo escorrer dos filhos. As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos, porque os filhos estão como invasores dentes-de-leão no terreno das mães. E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, e atiram-se, através deles, como jactos para fora da terra. E os filhos mergulham em escafandros no interior de muitas águas, e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos e na agudeza de toda a sua vida. E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, e através dele a mãe mexe aqui e ali, nas chávenas e nos garfos. E através da mãe o filho pensa que nenhuma morte é possível e as águas estão ligadas entre si por meio da mão dele que toca a cara louca da mãe que toca a mão pressentida do filho. E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo, e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor. (excerto do poema «Fonte», publicado em A Colher na Boca, 1961). Herberto Helder | |||||||||
| | |||||||||||
Monday, June 16, 2008
Colecta Literária* 10 (Proudhon)
...A justiça, por melhor que a expliquem, permanece sempre um mistério, tal como a vida. (De la Pornocratie, notas e pensamentos.)
Se o misticismo é indestrutível, há um nome que o resume e que ninguém poderia apagar do pensamento dos homens: é o nome de Deus. Iria eu, estupidamente, fazer guerra a este conceito, de que não sou mestre? Que infantilidade! Antes de desonrar a nossa filosofia com esta ridícula negação..., como esqueceria eu que a revolução apresentou entre os seus dogmas, ao lado do progresso, a tolerância? (Justice, Sanction morale.)
Honremos em toda a fé religiosa, em toda a Igreja...honremos, mesmo no Deus que ela adora, a consciência humana. Conservemos a paz, a caridade, com as pessoas a quem esta fé é querida. É o nosso dever. (Justice, Posit. du Pr. de la Justice)
É notório que a humanidade crente vê coisas que a humanidade erudita não percebe; ela concebe, raciocina e julga de outro modo. Ela conclui de maneira diferente...Reside aí a grande cisão moderna.
Para tornar a sociedade possível, é preciso que uns - os incrédulos - façam um esforço de tolerância, enquanto que outros - os devotos - farão um esforço de caridade.
Devemos todos reconhecer, de boa fé, o que somos, e aceitar a nossa situação; respeitar-nos uns aos outros, e socorrer-nos mutuamente, como se fossemos simultaneamente, e a um mesmo grau, eruditos e crentes, devotos e justiceiros. (Jésus)
Proudhon, A Nova Sociedade, Ed. Rés.
Sunday, June 15, 2008
Em directo, Avelino de Almeida
(...) O Sol nasce, mas o cariz do céu ameaça tormenta. As nuvens acastelam-se sobre Fátima. Nada, todavia, detém os que por todos os caminhos e servindo-se de todos os meios de locomoção para lá confluem. (...)
O ponto da charneca de Fátima, onde se disse que a Virgem aparecera aos pastorinhos de lugarejo de Aljustrel, é dominado numa enorme extensão pela estrada que corre para Leiria, e ao longo do qual se postaram os veículos que lá conduziram os peregrinos e mirones. (...)
A hora antiga é a que regula para esta multidão, que cálculos desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias às influências místicas computam em trinta ou quarenta mil criaturas... A manifestação miraculosa, o sinal visível anunciado está prestes a produzir-se - asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espectáculo único e inacreditável para quem não foi testemunha dele. (...)
Avelino de Almeida, Ourém, 13 de Outubro, 1917.
Fragmento XV
Olhando para o mesmo fenómeno uns vêem o sol bailar, outras vêem o rosto da Virgem Maria e outros nada vêem de especial.
Cada criatura é um enigma da vida. A diferença entre o modo como se vê o mundo e o mundo em si é ténue para cada um e infinita entre todos. Um objecto, uma cena vista, claramente, por cada um não é um dado, plenamente, objectivo para todos. Tudo varia consoante a perspectiva.
Olhando para o sol em Fátima todos apreenderam as mesmas cores e formas mas, de facto, não viram a mesma coisa: alguém viu o sol bailar, outro, o rosto cintilando da Virgem Maria, muitos nada viram de especial senão o sol coruscando, momentaneamente, num dia de chuva.
Que vejo eu na imagem?
Vejo apenas uma multidão expectante e ansiosa, o sol sorrindo por entre as nuvens carregadas e sombrias. Um lampejo de beleza. Um momento de eternidade.
Leonardo Ventura, Memórias da I República Democrática
Saturday, June 14, 2008
Não feches as asas
apagando as canções;
ainda que os outros pássaros
tenham ido dormir
e estejas cansado;
ainda que o medo rumine na sombra
e se cubra o rosto do céu,
meu pássaro, escuta-me
e não feches as asas!
Não. Não são as sombras do bosque,
é o mar que se levanta
como negra serpente;
não é a dança do jasmim em flor,
mas o fio da espuma...
Onde está a verde praia cheia de sol?
Onde está o teu ninho?
Meu pássaro, escuta-me
e não feches as asas!
A noite solitária
atravessou-se no teu caminho
e a aurora dorme
atrás dos montes sombrios.
As estrelas sustêm a respiração
e contam as horas.
A lua débil
boia no céu profundo.
Meu pássaro, escuta-me
e não feches as asas!
Nem a espearnça nem o temor são teus!
Não há para ti palavras
nem gritos, nem lar, nem ninho.
Tens apenas duas asas
e o céu sem caminhos!
Meu pássaro, escuta-me
e não feches as asas!
Rabindrath Tagore, Coração da Primavera
Fragmento XLVIII
Deus também habita, oculto, no coração das gentes. Basta ouvi-la, à voz do coração.
Leonardo Ventura, Confissões Involuntárias
Friday, June 13, 2008
Fragmento CVVIIII
Haja bom senso na Res Publica!
Leonardo Ventura, Memórias da I República Democrática

