Friday, February 29, 2008

Lou Salomé, Paul Rée e Nietzsche, 1882

Glória e Eternidade, 84, Nietzsche (trad. Paulo Quintela)

Os teus grandes pensamentos,
que vêm do coração,
e todos os pequenos,
- esses vêm da cabeça -
não são eles todos mal pensados?

Fragmento LXXI

Quando se trata da vida intelectual os princípios são sempre mais seguros e fiáveis do que os sentimentos e intuições, volúveis e caprichosos, mais propícios aos artistas e anarcas do que aos sábios e cientistas.
No entanto, a vida sem um pouco de aventura e colorido não tem sabor. Difícil é, com efeito harmonizar saberes, sabores e cores numa composição. É preciso ser artista, e de preferência músico ou dançarino, atento aos ritmos e aos tempos.

Leonardo Ventura, Confissões Involuntárias

Wednesday, February 27, 2008

Milladoiro - O bruxo da montaña

"Cecília" (1882), Henrique Pousão

Tuesday, February 26, 2008

Fragmento XXX

Não confundas o amor com o medo e o medo com o poder.

A velha proxeneta não desistiu ainda.
Procura a balança com que há-de sopesar-te:
"Mostra-me o teu dedinho, criança.
Tão magrinho, tão frágil a minha pequenina!
Quanto vales? Duas peças de linho talvez.
Serve-me e às duas peças de linho
acrescentarei ainda o valor de um lenço bordado".
(Arredondada com papas de milho e aveia,
encorpada e cevada, render-me-ás boas patacas!)

"Adeus meu cajadinho de pastora,
adeus ovelhinhas tenras e meigos sonhos,
minha tez tisnada de trigueira,
minha ama chama-me!"

Horas a fio ao tear, empalidecida,
tecerei mágoas e ardores.
(Lá fora brilha enfeitiçado o sol de Maio,
desabrocham os lilazes e as madressilvas!)

É este o preço do amor?
Tu que nunca amaste, à beira do abismo,
onde sonhas absorto e bebes absinto,
como poderias tu saber o valor do amor.

Monday, February 25, 2008

Magritte, Le Modèle Rouge

Paul Éluard, "La Mort, L'Amour, La Vie"

J'ai cru pouvoir briser la profondeur l'immensité
Par mon chagrin tout nu sans contact sans écho
Je me suis étendu dans ma prison aux portes vierges

Comme un mort raisonnable qui a su mourir
Un mort non couronné sinon de son néant
Je me suis étendu sur les vagues absurdes
Du poison absorbé par amour de la cendre
La solitude m'a semblé plus vive que le sang

Je voulais désunir la vie
Je voulais partager la mort avec la mort
Rendre mon coeur au vide et le vide à la vie
Tout effacer qu'il n'y ait rien ni vitre ni buée
Ni rien devant ni rien derrière rien entier
J'avais éliminé le glaçon des mains jointes
J'avais éliminé l'hivernale ossature
Du voeu de vivre qui s'annule.

Amadeus Mozart, A Flauta Mágica

Magna Opera

Soaram nove horas e meia no relógio da Ópera de S. Carlos. Dois segundos depois a bomba explodiu. A imprensa noticiou o evento em parangonas.
Doido e perigoso, Ramsés, o Egípcio, filho de Cleópatra, não cessa de pregar-me partidas! Felizmente, o nível das águas do Nilo continua a subir. Nos campos alagados e destruídos alguns pássaros recomeçam a cantar. Farei o cadáver desaparecer num charco perto de S. onde nem mesmo os abutres poderão encontrá-lo.
Não regressarei àquilo que conheço. Em Munique, em Chipre, em Rodes, em Singapura, alguém estará à minha espera. Não partirei.
Sur son lit de mort, si beau estropié, mon frère m'appelle. Il veut savoir un peu plus.
"Salut mon frère! Je suis la messagère de l'Enfer Intérieur où tous qui ont une âme humaine, divine ou animale se reconcontrent. Dans le lit d'une morte j'appris a ne plus mentir. Mais aussi je ne dit jamais la vérité. Ce que j'aime: la femme, les couleurs, le cuivre, le sel, l'amour, la toile d'araignée. Ce que je méprise: l'homme, l'intelligence que ne respecte pas les lois du réloge circadien, la médiocrité sensorielle.
Reprends l'haleine. Danse. Encombre. Ramasse. Jette en force. Occupe l'espace par la voix. L'infini c'est l'irréel."
No céu abobadado ecoam as vozes dos anjos, a luz avança e a realidade recua, ofuscada pelo sonho.

Saturday, February 23, 2008

Censura e Minimalismo Intelectual

Framento LXX

Chamo-me Papsístratos e sou um dos habitantes de Necrópolis, a Grande Cidade, imersa em sombras, bestial e gigantesca, labirinto sem saída, campo concentracionário de trabalho escravo. A única cidade, diz-se, onde ainda existem vestígios do que poderia ter sido uma cidade humana.
Ruas cruzadas, janelas abertas para o abismo, o silêncio é a norma, a inconsciência e a apatia, as atitudes recomendadas e, por todos, aceites e praticadas.
Espalhados pela cidade, ecrãs gigantescos espelham a vida reptiliana dos seus habitantes. O ar é mortífero. Nunca uma célula de generosidade ali conseguiu sobreviver.
À minha nascença, o meu bisavô deu-me a beber da água da fonte sagrada que havia na periferia da cidade, protegida por uma alta massa rochosa, cujos acessos e reentrâncias eram desconhecidos por quase toda a gente, perdidas que estavam na Memória.
Desperto do sonho colectivo, olho à minha volta e reconheço o emblema críptico da cidade, regularmente avistado em todos os cartazes, repetidos insidiosamente em todos os canais, ressoando nos mais obscuros recantos do meu cérebro: "Arbeit macht frei". Não sei quem são os meus amigos. Não sei quem são os meus inimigos. A máquina impera e o terror habita o coração dos homens.

Friday, February 22, 2008

José Mário Branco, A Cantiga é uma Arma

Fragmento XLIV

O velho lobo escancarou as goelas. A agressão vinha do palco e espalhava-se em ondas pela velha sala dourada e vermelha, abarrotada de gente: "Com que então carneirinhos do pastor, abjectos e vis defensores da ordem estabelecida, quem nasceu por cima nunca pode vir abaixo. Viva o poder que nos permite viver no remanso calmo dos velhos hábitos!"
O público aplaudia com alguma má consciência. Afinal tratava-se do herói de um acontecimento remoto, mas que convém ainda discretamente celebrar: o 25 de Abril. Doía-me a alma. Tinha saudades da malta. Dos alegres e estúpidos que acreditaram sem razão que as coisas jamais poderiam regressar ao que foram antes do depois do antigamente.
Fecho os olhos, calo-me, não sei, nunca vi nada.

Narciza Felizarda, Crónicas de Antanho

Thursday, February 21, 2008

O Grito, E. Munch, 1893

Fragmento XVII

Sou medrosa desde a raiz dos cabelos até à planta dos pés. Sempre fui assim. Sempre tive medo. Medo de falar porque ignorava o segredo das palavras. Medo de mexer porque partia. Medo de partir porque abandonava. Medo de agir porque sentia. Mentiram-me sempre. A vida não é um dom de amor mas um acidente numa berma da estrada do tempo. À minha volta ouço os gritos dos seres torturados, os berros dos espancamentos, as gargantas mutiladas. Do Grande Inquisidor percepciono apenas as aparências, os vestígios, as sombras, os sinais:
A rapariga no guichet de olhos mortiços, a raiva escondida do motorista do autocarro, as lágrimas da criança violentada, a professora tirânica, o médico sem alma, a mulher de limpeza com os joelhos cheios de reumatismo, o empregado de café arrogante, o ministro incompetente, o paternalismo desdenhoso do subchefe de polícia, o banqueiro avaro, o silêncio oportuno, a gargalhada seca e nervosa, o grito abafado na garganta...

Tuesday, February 19, 2008

Maria Bethânia, abertudo do show Âmbar , 1996

Fragmento XLIX

Onde e quando tudo começou. Aqui. No coração doente. Nas palavras que nunca mais chegavam. Como se houvesses de facto morrido. Mal durmo e o mais ligeiros espasmo de vento é suficiente para me acordar. Suspeitei do teu suicídio, apesar de me dizerem que estás bem de saúde e, talvez, somente um pouco pálido. Há muitas formas de morrer e a mais banal não é a verdadeira, a de faca e alguidar, mas a outra, silenciosa e triste, desesperada e muda, que se recusa a falar.
Eras tão tímido que o silêncio em ti era melodia, interrompida por esparsos sorrisos e palavras meigas e tolas. E era porque fingias solicitude que eu acreditava que gostavas de mim.
- Levantaste-te, hoje, tão tarde minha querida! Ainda não se te acabaram as enxaquecas?
Louco que tu eras! Como se eu não fingisse tudo. As dores, a asma, numa espécie de candura histérica com que pretendia manter-te preso a mim.
Asfixia lenta como uma botija de gás aberta numa cozinha onde estivéssemos fechados, tu e eu. Batoteiro. Ralhavas-me e fingias tão bem como eu que não sabias do que se tratava.
A lealdade era em ti uma espécie de vício morno e cálido que te protegia de maiores tentações.
No gira-discos, ouço velhas canções cobertas de riscos e da poeira do tempo, faúlhas de velhas fogueiras, chamas mal apagadas, cicatrizes e feridas que ainda sangram...

Monday, February 18, 2008

R. W. Fassbinder, Liebe ist Kalter als der Tod"

Fragmento XLVII

Querida, hoje não fui à tua casa. Estou no café e limito-me a olhar pela janela da vida sem perceber o que pode ter acontecido. Quero fugir. Quero partir e não regressar nunca mais. Mas tenho os pés pesados e alma atada. Exiges constantemente a minha presença como se quisesses me controlar e algumas vezes sou eu próprio que me quero colar à tua sombra como se longe de ti a vida não fizesse sentido. Gostaríamos ambos que nos pudéssemos amar sem que isso nos alterasse mas não é possível e dói. Dói muito não é verdade? Quando penso em ti, nas tuas pernas inchadas, nas tuas mãos maltratadas, nos teus olhos míopes enquadrados pelos óculos fora de moda, tenho vergonha de te amar.
Desprezo-te tanto, tanto... Odeio-te compreendes! E não compreendo os meus acessos repentinos de ternura. E quanto mais tento soltar as amarras mais me sinto preso a ti e odeio esta prisão. Liberta-me se és capaz. Deixa-me partir!

Saturday, February 16, 2008

Ode, Ricardo Reis

Não queiras Lídia, edificar no 'spaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não 'sperando.
Tu mesma és tua vida.
Não te destines,que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?

Conto de Verão

Estava-se no pino do Verão e o calor era insuportável. A terra argilosa abria fendas por onde as fadas e gnomos, seus prisioneiros, se escapavam, provocando nos humanos corações delírios e orações malfazejas.
Ao longo da rua, bordejada por casas de pedra e cal, caminhavam uma velha e duas crianças. A velha de rosto macilento e sulcado de cicatrizes e rugas vestia um pesado xaile negro. O rapazinho possuía uma testa alta e olhos azuis, tristes e serenos. Da rapariguita recordo apenas a expressão feliz de menina submissa e os olhos redondos e abertos sempre em pasmo, a cabeça coroada de violetas.
Atrás do pequeno grupo seguia uma galinha de asas pintalgadas de vermelho e amarelo, que de quando em vez soltava um cacaracá triunfante de quem acabou de por no mundo mais um ovo de Colombo, polido e fresquinho, pronto para frigir em azeite e lume morno.
À medida que se aproximavam do rio a atmosfera tornava-se mais fresca e leve. No ar volteavam borboletas e libélulas.
Uma vez lá chegadas, as crianças entretiveram-se a apanhar colherzinhas, pequenos seres que os dicionários que não sabem tudo designam por girinos. A velha, entretanto, construía uma pequena embarcação com rémiges de pássaros e pequenos troncos. Dos seus lábios secos e murchos saía uma voz cava que soava como uma maldição: "A doce mãe de Telémaco brinca com a areia do mar. Tem beijinhos quando quer. Tem beijinhos quantos quer. Eu sou a outra e a salamandra é minha. A salamandra é minha!"
Soavam ao longe as doze badaladas do meio-dia. A estranha criatura transformava-se lentamente numa águia de nariz adunco. Sobressaltado, o rapazito aproximou-se. A águia de garras aguçadas traçou-lhe na fronte o sinal da cruz. Hipnotizada, a criança adormeceu. Os pés permaneciam na água, o corpo dentro da jangada que, empurrada pela corrente,devagarinho, se afastava.
A irmã, tomada pelo pânico, fora incapaz de abrir a boca. Demasiado tarde rompera o círculo em que a voz da velha a circunscrevera. Dizia-lhe ela: "É inútil clamares pelo teu irmão. Ele jamais regressará. Nunca duas vezes a água do rio corre na mesma direcção. Parte comigo e renascerás mais bela do que nunca, envolta em tules e pedrarias."
(Víbora que lentamente destruías o meu coração)
Longo tempo a miúda permaneceu paralizada. De repente começou a correr.
(Talvez o tempo não exista)
- Irmão querido através de todos os caminhos eu irei ao teu encontro. Para dizer que te amo. Para te possuir pelo sangue, pela alma, pelo corpo, pela vida!
Evidentemente, não conheço muito bem esta história, o que deveras lamento. Há muito tempo que os sulcos rasgados pela embarcação ao longo do rio desapareceram, guardados apenas pela Memória, musa dos meus sonhos mais queridos. E como quem não quer a coisa, volto outra vez ao princípio.
(Talvez o tempo não exista)
Era uma vez meio-dia aceso em pleno verão...

Thursday, February 14, 2008

Duke Ellington (1943), It Don't Mean A Thing

Fragmento XIX

Sinto-te presente,
sombra ou verso.
Nas minhas noites de mentira
sonho o teu sexo,
abismo escancarado de vertigem,
noivo triste em terra amena,
bravio como o mar do Norte
com odor de suor e limo agreste.

Monday, February 11, 2008

Ancient Greek Music with Images

Poema de Safo, trad. Eugénio de Andrade

Com lúcidos pés, assim dançavam
noutros tempos as raparigas de Creta
à roda do altar; frescas eram
e frágeis as flores da relva que pisavam

Primeira lição de anatomia

Não dispas a túnica.
Por baixo do seio esquerdo
tens um sinal preto,
perto do umbigo uma curta cicatriz,
na nádega direita uma flor de lis,
nas palmas da minha mão o teu cheiro,
feiticeira negra, chá de jasmim.

Friday, February 08, 2008

Billie Holiday, Lover Man

Splendor in the Grass

Fragmento XXVII

Brisa que corres ao longo do rio
se vires o meu menino,
pede Amor, que em segredo murmures:
"Abandonei o castelo paterno,
onde jazia semi-morta de medo e frio,
em cansadas horas regulares de sono e passadio.
Esfarrapei meu vestido de anis e alfavaca,
empunhei longa cimitarra, pisei fétidas cloacas.
Bebi amarga cicuta! Por ti.

Aragem que sopras do salgado e doce rio,
se vires o meu menino,
manda amor que brandamente sussurres:
"Não esqueci o teu olhar brando e meigo,
as horas venturosas por entre verdes árvores.
Rouxinol e lua procuro-te e é sempre noite.
Estou triste, abandonada e só.
Meu coração roído de saudades.

Vento que brincas com as águas do rio,
se vires o meu menino,
dá-lhe notícias minhas.
Nunca nos encontramos,
por tal nunca morreremos
abraçados ao corpo das rosas,
jasmins e violetas.
Meu coração roído de saudades!

Umbigo do meu paraíso,
tormenta é o vento e meu castigo.
em rajadas sopra do Norte,
brando ergue-se do Sul.
Quando a noite cair
partirei para Oriente.
Ai Deus se te verei,
Ai Deus, por Deus sim!

Monday, February 04, 2008

Chico Buarque, Vai Passar (Ditadura militar)

Interview scene, Alphaville (1965), Godard

Fragmento XLIII

É difícil falar. Ando às voltas com a caneta na mão e sinto uma enorme dificuldade. Como se uma lavagem ao cérebro me estivesse a ser feita. E isso acontece sempre que determinados temas vêm à baila. Aos senhores do poder não agrada que eu pense. Tentam roubar-me a personalidade, identificar-me com um qualquer número numa série infindável, numa ordem bem definida. Retiram-me todas as oportunidades de manifestação. Condenam-me ao silêncio. És mulher e ainda por cima estúpida! A minha impotência humilha-me. Atrevo-me a reivindicar os meus direitos. Que pena dizem eles! Que gostariam que eu os servisse de borla e calada como uma escrava dos tempos antigos. Enquanto que eles os espertinhos, arrecadam fortunas em contas bancárias que se multiplicam mais rapidamente que os pães de Cristo!
Estou farta dos milagres económicos, da lotaria da banca, dos choques tecnológicos e quejandas tretas com que tentam justificar as suas manobras criminosas. Forçados a falar, disparatam a torto e a direito e poluem o ambiente. Ando intoxicada com estas mixórdias.
Por mais que me encharquem de todos os lados com as vantagens insuperáveis de possuir um carro sport do último modelo xx ou a superioridade magnífica dos pensinhos higiénicos marca xy - os cabrões mal me deixam respirar, quanto mais pensar! - misturados com a sopa do jantar e os pobrezinhos do Dafur - que grande furo jornalístico! - Sim, eu sei estou muito bem de vida em comparação com aqueles desgraçadinhos! Obrigado, Grande Chefe! Devemos-te tudo Grande Pai!
Toma cuidado boss... Eu ainda não desisti... Tu ainda não passaste. E o carnaval continua...