Tuesday, February 26, 2008

Fragmento XXX

Não confundas o amor com o medo e o medo com o poder.

A velha proxeneta não desistiu ainda.
Procura a balança com que há-de sopesar-te:
"Mostra-me o teu dedinho, criança.
Tão magrinho, tão frágil a minha pequenina!
Quanto vales? Duas peças de linho talvez.
Serve-me e às duas peças de linho
acrescentarei ainda o valor de um lenço bordado".
(Arredondada com papas de milho e aveia,
encorpada e cevada, render-me-ás boas patacas!)

"Adeus meu cajadinho de pastora,
adeus ovelhinhas tenras e meigos sonhos,
minha tez tisnada de trigueira,
minha ama chama-me!"

Horas a fio ao tear, empalidecida,
tecerei mágoas e ardores.
(Lá fora brilha enfeitiçado o sol de Maio,
desabrocham os lilazes e as madressilvas!)

É este o preço do amor?
Tu que nunca amaste, à beira do abismo,
onde sonhas absorto e bebes absinto,
como poderias tu saber o valor do amor.

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