Saturday, February 16, 2008

Conto de Verão

Estava-se no pino do Verão e o calor era insuportável. A terra argilosa abria fendas por onde as fadas e gnomos, seus prisioneiros, se escapavam, provocando nos humanos corações delírios e orações malfazejas.
Ao longo da rua, bordejada por casas de pedra e cal, caminhavam uma velha e duas crianças. A velha de rosto macilento e sulcado de cicatrizes e rugas vestia um pesado xaile negro. O rapazinho possuía uma testa alta e olhos azuis, tristes e serenos. Da rapariguita recordo apenas a expressão feliz de menina submissa e os olhos redondos e abertos sempre em pasmo, a cabeça coroada de violetas.
Atrás do pequeno grupo seguia uma galinha de asas pintalgadas de vermelho e amarelo, que de quando em vez soltava um cacaracá triunfante de quem acabou de por no mundo mais um ovo de Colombo, polido e fresquinho, pronto para frigir em azeite e lume morno.
À medida que se aproximavam do rio a atmosfera tornava-se mais fresca e leve. No ar volteavam borboletas e libélulas.
Uma vez lá chegadas, as crianças entretiveram-se a apanhar colherzinhas, pequenos seres que os dicionários que não sabem tudo designam por girinos. A velha, entretanto, construía uma pequena embarcação com rémiges de pássaros e pequenos troncos. Dos seus lábios secos e murchos saía uma voz cava que soava como uma maldição: "A doce mãe de Telémaco brinca com a areia do mar. Tem beijinhos quando quer. Tem beijinhos quantos quer. Eu sou a outra e a salamandra é minha. A salamandra é minha!"
Soavam ao longe as doze badaladas do meio-dia. A estranha criatura transformava-se lentamente numa águia de nariz adunco. Sobressaltado, o rapazito aproximou-se. A águia de garras aguçadas traçou-lhe na fronte o sinal da cruz. Hipnotizada, a criança adormeceu. Os pés permaneciam na água, o corpo dentro da jangada que, empurrada pela corrente,devagarinho, se afastava.
A irmã, tomada pelo pânico, fora incapaz de abrir a boca. Demasiado tarde rompera o círculo em que a voz da velha a circunscrevera. Dizia-lhe ela: "É inútil clamares pelo teu irmão. Ele jamais regressará. Nunca duas vezes a água do rio corre na mesma direcção. Parte comigo e renascerás mais bela do que nunca, envolta em tules e pedrarias."
(Víbora que lentamente destruías o meu coração)
Longo tempo a miúda permaneceu paralizada. De repente começou a correr.
(Talvez o tempo não exista)
- Irmão querido através de todos os caminhos eu irei ao teu encontro. Para dizer que te amo. Para te possuir pelo sangue, pela alma, pelo corpo, pela vida!
Evidentemente, não conheço muito bem esta história, o que deveras lamento. Há muito tempo que os sulcos rasgados pela embarcação ao longo do rio desapareceram, guardados apenas pela Memória, musa dos meus sonhos mais queridos. E como quem não quer a coisa, volto outra vez ao princípio.
(Talvez o tempo não exista)
Era uma vez meio-dia aceso em pleno verão...

0 Comments:

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

<< Home