Saturday, February 23, 2008

Framento LXX

Chamo-me Papsístratos e sou um dos habitantes de Necrópolis, a Grande Cidade, imersa em sombras, bestial e gigantesca, labirinto sem saída, campo concentracionário de trabalho escravo. A única cidade, diz-se, onde ainda existem vestígios do que poderia ter sido uma cidade humana.
Ruas cruzadas, janelas abertas para o abismo, o silêncio é a norma, a inconsciência e a apatia, as atitudes recomendadas e, por todos, aceites e praticadas.
Espalhados pela cidade, ecrãs gigantescos espelham a vida reptiliana dos seus habitantes. O ar é mortífero. Nunca uma célula de generosidade ali conseguiu sobreviver.
À minha nascença, o meu bisavô deu-me a beber da água da fonte sagrada que havia na periferia da cidade, protegida por uma alta massa rochosa, cujos acessos e reentrâncias eram desconhecidos por quase toda a gente, perdidas que estavam na Memória.
Desperto do sonho colectivo, olho à minha volta e reconheço o emblema críptico da cidade, regularmente avistado em todos os cartazes, repetidos insidiosamente em todos os canais, ressoando nos mais obscuros recantos do meu cérebro: "Arbeit macht frei". Não sei quem são os meus amigos. Não sei quem são os meus inimigos. A máquina impera e o terror habita o coração dos homens.

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