quarta-feira, janeiro 01, 2025


                Pulso Silencioso


Eu respiro no silêncio tenso e crispado,

no viver calado de um corpo amordaçado.

Meu coração é uma mola que não funciona 

Vejo os sorrisos, as risadas, as lágrimas. 

E adoraria estar ali, mas a distância é infinita.


Não espero a faísca ou o vibrar da tempestade. 

O que me acontece é mero hábito e repetição.

De tudo só me restam palavras ocas e vazias.

Poderá alguma coisa mudar e o meu coração palpitar 

com a visão da traiçoeira e ardilosa esperança?




terça-feira, janeiro 04, 2022

Creep, Radiohead

Francis Bacon, Autorretrato, 1971

Ninguém

Eu sou ninguém. Eu não sou ninguém. Não quero ser ninguém. Quero existir em paz. Quero paz. E não encontro ninguém. Não me encontro. Não sei quem sou. Estou amarrado à vida e não me perguntaram se eu queria existir. Eu só queria viver. Ser uma árvore ou uma flor, não ter outra existência que a da seiva que corre, do sangue que flui, do vento que passa, da água que canta na fonte.

terça-feira, julho 15, 2014

 Jean-François Millet, Mulher com ancinho
 
É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça da felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
                                                                    António Ramos Rosa, Círculo Aberto, Ed. Caminho, 1979.

segunda-feira, julho 07, 2014

 
 
 
 
"A Pair of Shoes"
                                                         1885, Vincent Van Gogh.


Declinar a Ocidente

Os fantasmas à solta
correm desabridamente,
arrancando árvores,
arruinando as casas,
estilhaçando os vidros das janelas.

Regressaram dos seus túmulos
de pedra os soldados mortos
e avançam sedentos e famintos,
espalhando sangue, mutilando corpos,
cuspindo impropérios à Grande Parideira,
Vida nua, Vida crua, Vida fria,
Vida voraz, Vida insaciável.

Vida, Furor de Diónisos,
Meio dia de Nietzsche,
Cansaço de Mim de Pessoa,
Promessa sempre adiada,
Desejo infindável de partir.

quarta-feira, junho 25, 2014





Green, Red, Grey.
Momentos de felicidade

Uma seta que silva,
Um sorriso que se ilumina,
Uma maçã que cai.

quinta-feira, junho 19, 2014


Ensinaram-me. O quê? Ao certo não sei.
Aprendi algo, contudo:
(Só sei que nada sei!)
O princípio da filosofia,
O princípio de tudo,
A medida de tudo,
Sou eu e a minha circunstância.

O infinito cabe na palma da mão,
Na algibeira aberta da parte de dentro,
Do avesso, onde pulsa o coração,
Que vive, sente, bate, é.
Agora e para sempre,
Alegria, medo, esquecimento, arte!

terça-feira, junho 10, 2014

A Esperança Morreu em Lampedusa


A Esperança Morreu em Lampedusa

Vinham embarcados do outro lado do mar,
Traziam desejos e memórias.
medo, desespero e sonhos...
A morte encontrou-os em Lampedusa.
Quem resgatará os seus corpos, 
que, iguais, sem dor, emudecidos,
aguardam as mãos da terra fria?

sexta-feira, dezembro 30, 2011

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Outros tempos, outras modas

Esse tinha sido o tempo do medo,
o tempo do avô sentado no banco
corrido de madeira,
com um rosário nos dedos nodosos
entoando padres nossos e ave-marias.

Tinha sido um tempo de invernias infinitas,
um tempo de janelas tocadas de vento,
de santos pendurados nas paredes caiadas,
de vidraças sem cortinas.

Esse tinha sido o tempo do fim da inocência,
o tempo da avó, encotinhada, na enxerga de palha,
deitando contas à vida, aos bácoros paridos,
ao cântaro sem água, no canto da cozinha.

Tinha sido um tempo de morrinha,
de fumo saindo pelos telhados das casas de pedra,
de campos zurzidos pela chuva,
e galinhas soltas pelos caminhos,
um tempo de poucas palavras.
.

domingo, dezembro 25, 2011

Edith Piaf -Le Noel de la Rue





No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
(excerto do poema «Fonte», publicado em A Colher na Boca, 1961).
Herberto Helder























segunda-feira, junho 16, 2008

Rodrigo Leão , Vita Brevis

O colectivo da Arcádia despede-se, fraternalmente, dos seus amigos e visitantes. A partir de hoje, entra em período de férias.

Colecta Literária* 10 (Proudhon)

Não criamos de modo nenhum uma Igreja, não formamos, falando com propriedade, um partido. Não trazemos ao mundo uma doutrina feita, à maneira dos reveladores, dos filósofos do absurdo e de alguns reformadores contemporâneos. Não somos os representantes de qualquer opinião, de qualquer interesse de corporação ou classe. O nosso princípio é velho como o mundo, vulgar como o povo: é a justiça, e nós tentamos fazer um comentário a seu respeito, que outros continuarão depois de nós e que jamais terá fim... (Justice, Position du probl. de la Justice.)
...A justiça, por melhor que a expliquem, permanece sempre um mistério, tal como a vida. (De la Pornocratie, notas e pensamentos.)
Se o misticismo é indestrutível, há um nome que o resume e que ninguém poderia apagar do pensamento dos homens: é o nome de Deus. Iria eu, estupidamente, fazer guerra a este conceito, de que não sou mestre? Que infantilidade! Antes de desonrar a nossa filosofia com esta ridícula negação..., como esqueceria eu que a revolução apresentou entre os seus dogmas, ao lado do progresso, a tolerância? (Justice, Sanction morale.)
Honremos em toda a fé religiosa, em toda a Igreja...honremos, mesmo no Deus que ela adora, a consciência humana. Conservemos a paz, a caridade, com as pessoas a quem esta fé é querida. É o nosso dever. (Justice, Posit. du Pr. de la Justice)
É notório que a humanidade crente vê coisas que a humanidade erudita não percebe; ela concebe, raciocina e julga de outro modo. Ela conclui de maneira diferente...Reside aí a grande cisão moderna.
Para tornar a sociedade possível, é preciso que uns - os incrédulos - façam um esforço de tolerância, enquanto que outros - os devotos - farão um esforço de caridade.
Devemos todos reconhecer, de boa fé, o que somos, e aceitar a nossa situação; respeitar-nos uns aos outros, e socorrer-nos mutuamente, como se fossemos simultaneamente, e a um mesmo grau, eruditos e crentes, devotos e justiceiros. (Jésus)
Proudhon, A Nova Sociedade, Ed. Rés.