Wednesday, August 15, 2007

A menina de Gomide

É uma rapariga do campo, pujante e tímida. Se não lhe prestassem atenção nunca falaria. Por desejo. Talvez vergonha. Nunca sabe o que há-de dizer, se é a mãe que está doente, se chove, da ninhada de porcos acabada de parir. Acusam-na de ser altaneira e prestamista. É mentira. Ninguém menos do que ela conhece o valor do orgulho ou do dinheiro. Tem um mealheiro onde vai juntando uns tostões para quando se casar. Dinheiro que nunca será seu. Será da mãe, será do marido, será dos filhos, seu nunca. De quando em quando rouba umas laranjas do quintal da Sê Maria porque sabe que acabarão por cair se ninguém lhes deitar mão. É loura e tem olhos azuis como a avó morta há muito, que Deus Nosso Senhor a guarde em bom lugar. Os rapazes da freguesia requestam-na pouco. É acanhada e nada desenvolta. Não gosta muito de trabalhar e mil e uma vez sua mãe a chama antes que ela se decida a ver o que o gato faz na cozinha. Se fareja as sardinhas escondidas no armário ou come as bolachas do jantar com a cevada. Entretanto caminha nos campos vazia, colhe anémonas, prega partidas às galinhas, roubando-lhes os ovos, comendo-os com batatas fritas e pepsi-cola pela noite dentro. É louca e ignora-o e eu amo-a muito. Casaria com ela se um dia as cadelas parissem anjos, os frades fornicassem cabras e eu fosse algo mais que um ser pensante.

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