Wednesday, August 15, 2007

Para a minha mãe

Não quero mais estar pendurada no alto desta cruz. Doem-me os braços. Quero sair! Já! Estou cansada de todos os sentidos. Quero antes o desbragamento de todos os sentidos. Mãe!
Procurei tantas vezes aquela caixinha, mãe! Sabes qual? A quadrada. A redonda. A elíptica. A que me enquadrasse tão perfeitamente como o teu corpo, mãe, antes de eu nascer. Não encontrei caixa nem caixão onde coubesse.
Provavelmente é a última vez que te escrevo. Sei que vais morrer. Não posso dizer que lamente. Afastaste de mim todos os que tentaram se aproximar. Tinhas medo que eu me corrompesse. Que divertido!
Tu sabes mamã. Eu estou apaixonada . Não te digo por quem. Suspeito que sabes. Talvez que nem eu própria saiba. Ele está a caminho e vem. Eu vou partir.
Quem é ele? O rapaz da música. O rapaz da gaita de foles. O actor. O bailarino. O assassino. O jornalista de olhos azuis. Meigo e terno. O louro, o moreno, o de olhos verdes. O carpinteiro. O pobre, o rico, o sem casa, o louco, o irmão. Todo aquele que procura abrigo. Mãe! Eu sou uma casa!

0 Comments:

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

<< Home