"Um dia o coração explodiu-me nas mãos como uma bomba"
domingo, setembro 09, 2007
Confissões de um artista menor
Por volta do ano 12 da nova era, descobri, pela força das circunstâncias, que o trabalho assalariado era fonte contínua de infortúnios. No dia 7 de Maio desse ano concebi o projecto glorioso de escapar a esse destino vulgar e decidi que seria artista. Comecei então com energia, zelo e alguma preguiça a tomar as providências para a minha iniciação. A primeira coisa que fiz foi consultar o boletim metereológico. Soube então que ia chover. Munida de um estetoscópio, adereço indispensável, fui ter com a população indígena decidida a descrever com pincéis e tintas a relação da chuva com as pulsações cardíacas. Efectivamente, as pessoas tinham um ar espapaçado e parecia que andavam com as baterias descarregadas. Solicitamente, convencia-as que o bicarbonato de sódio com duas gotas de cianeto era o melhor que havia para a indigestão, fenómeno a que a chuva predispunha em naturezas com electricidade negativa. Não me ligaram nenhuma. Fui para a igreja pregar: " Eu sou artista e tenho alma de poeta e Fernando Pessoa, ele mesmo, único nas suas diversas variações e fugas, veio do inferno para me iniciar!" Não me ouviram os peixes quanto mais as humanas criaturas. Desfiz o engano. Meti os pés pelas mãos. Foi tudo mentira. Entrei na fábrica. Faço parte da engrenagem. Pontapique. Pontapique. Pontapique. Pá. Pontapique. Pontapique. Pontapique. Pá! Quando é que esta merda vai acabar? Etecetera... Etecetera e tal... Etecetera...
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2 comentários:
Muito bem.
Às vezes, vale a pena retroceder, acabamos por descobrir coisas novas. Não tinha visto o seu comentário. Obrigada pela visita.
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