Wednesday, October 03, 2007

Para que tu saibas

Ainda ontem à tarde perguntei-te: "Queres vir?". Repito-te: "Queres vir?"
Querida, não te faças desentendida. Ambos sabemos muito bem como é que tudo vai acabar. Nas contas do fim do mês. Na medida bem calculada de mentiras e verdades: "Não me peças dinheiro emprestado. Bem sabes que ando liso."
Estou esgotado. Não tenho energia para tocar o bandolim.
- Viste o meu creme de barbear? Achei piada à maneira como peneiraste a farinha. Não é muito vulgar. A cicatriz que tens nas costas como é que a arranjaste?
Amanhã. Por que será sempre amanhã que tudo vai acontecer? As cartas que o carteiro não trouxe hoje. As chamadas que o gravador telefónico não registou. Amanhã sim. Amanhã talvez.
- Viste a Isabela? Onde? No hospital!? Deitou-se a dormir e não acordou. Interessante. Detesto a irresponsabilidade com que as pessoas se suicidam. É um crime a maneira como incomodam os amigos. Ter que ir ao hospital. Logo hoje. Que maçada!
Às vezes paro um bocado e não me reconheço. Por isso tenho medo de parar. Medo de descobrir que estou deitado a dormir e talvez morto.

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