Thursday, June 12, 2008

Colecta Literária* 9 (Eduardo Lourenço)

Depois do crepúsculo da geração estoicamente épica de 70 e acompanhando-a no seu adeus ao sonho de um país realmente transfigurado e senhor de si mesmo, a paisagem da cultura portuguesa é um deserto de ruínas, um Alcácer Quibir de heroísmo virtual. Talvez por isso, e no rasto de Oliveira Martins, que colocara D. Sebastião no centro da mitologia portuguesa, praticamente nenhum autor representativo do século XX deixou de reescrever por sua própria conta, para marcar ou ressuscitar nela, a história de um rei que, na vida e na morte, converte o empírico e exaltado destino de um povo de configuração imperial num destino messiânico, esperando do futuro uma grandeza que nunca mais será mais universal que a enterrada numa só tarde nas areias ardentes de Alcácer Quibir. De António Nobre a Pascoais, de António Patrício a José Régio, de António Sardinha a Fernando Pessoa e Torga, de Jorge de Sena a Almeida Faria, Natália Correia e Manuel Alegre, em pura transfiguração mítica ou desmistificação exorcística, em verso ou prosa, como Malheiro Dias ou António Sérgio, que mais do que ninguém desejou inscrevê-lo no passado como símbolo de aberração colectiva, a figura e o símbolo de Portugal atravessaram o século como se fossem ao mesmo tempo o seu fantasma insepulto e o seu anjo tutelar.

Eduardo Lourenço, Portugal como Destino: Dramaturgia cultural portuguesa.

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