Thursday, January 24, 2008

Conversas desconexas diante de um espelho

Ontem à noite entrou-me um desconhecido em casa. Vestia um fato cinzento e parecia muito triste. Contou-me a história da sua vida. Era divorciado. Tinha um filho crescido e muito crédito na banca. Senti-me um pouco aturdida pelo inesperado da situação e perguntei se poderia ser útil. Respondeu-me que não. Estava apenas de passagem e um pouco doente. Mal lhe vislumbrava o rosto e o momento era embaraçoso. Não nos entra um desconhecido assim em casa! A minha atitude confundia-me. Como conseguira ele entrar? Normalmente desconfio e receio os desconhecidos. Seria algum antigo amigo? Daqueles que não vemos há tanto tempo que os confundimos no nosso álbum de recordações com um livro ou um personagem perdido, uma cassete ou um filme que guardamos algures numa estante do sótão?
Tentei descobrir mais coisas. Pouco a pouco comecei a sentir medo. Tanto mais que por vezes surpreendia na sua voz ameaças veladas. Quem era ele? O que queria de mim? Qual o motivo da sua aparição? Parei um segundo. Ele não dissera uma única palavra. Olhei-me no espelho. Teria sonhado? A casa onde vivia seria assombrada?
Recusei-me a pensar mais no assunto. Disse para comigo que pararia para fumar um cigarro e mais tarde reflectiria sobre o caso. Ele desaparecera e da sua presença não tinha restado senão aquele amontoado de pensamentos nublados e sensações desatinadas. Gostaria de ter feito um apelo à polícia. Queria que o identificassem. Mas talvez não haja perigo. Talvez ele não regresse e se voltar como uma alma defunta que venha em paz e como amigo. Bem preciso!

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