Friday, May 23, 2008

Colecta Literária* 8 (Franz Kafka)

Qualquer homem é particular e, em virtude da sua particularidade, chamado a agir, desde que tome gosto na sua particularidade. Na escola como em casa, tanto quanto tive experiência, trabalhava-se para delir a particularidade. Era tornar a educação mais fácil, mais fácil também a vida da criança; é verdade que lhe era necessário saborear em primeiro lugar a dor que provoca a sujeição. Não se fará nunca compreender a um rapaz, à noite, quando está no melhor de uma história cativante, nunca se lhe fará compreender por uma demonstração limitada a ele próprio que é necessário interromper a leitura e ir-se deitar. Diziam-me em semelhante caso que se fazia tarde, que estragava a vista, que o meu despertar na manhã seguinte seria penoso, que essa medíocre e estúpida leitura não valia a pena, o que não podia contradizer expressamente, porque,em suma, nada disso atingia sequer os confins do que merece reflexão. Tudo era infinito, tudo se perdia no indeterminado de tal modo que podíamos identificar este todo com o infinito. O tempo era infinito, não podia portanto fazer-se tarde, o poder da minha vista era infinito, não podia portanto esgotá-lo, a própria noite era infinita, não havia portanto necessidade alguma de me inquietar com o levantar matinal; e quanto aos livros, não os distinguia de acordo com a estupidez ou a inteligência, mas conforme me cativavam ou não, ora este cativava-me. Tudo isso não o podia exprimir assim, mas sucedia que à força de suplicar que me fizessem o favor de me permitir prolongar a leitura, me tornava importuno ou decidia prosseguir a leitura sem consentimento. Tal era a minha particularidade.
Franz Kafka, Antologia de Páginas Íntimas, trad. Alfredo Margarido.

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