Wednesday, April 02, 2008

Fragmento XVIII

Era até uma rapariga conversadora se lhe dessem trela. Qualquer pretexto servia-lhe de tema quer se tratasse de um acordo político entre nações, o engate do vizinho ou a consumição por causa da mãe sempre doente. As suas palavras nunca deixavam rasto como se se esgotassem no próprio acto de dizê-las.
Jamais agia gratuitamente. Tinha sempre diante de si, omnipresente, aquilo que os hindus designam por karma, ou seja o tropel inelutável das consequências que um simples gesto ou pensamento pode desencadear, o que em termos científicos vulgarmente se designa por efeito borboleta: um insecto que abre as asas em Nova Iorque desencadeará por concatenação de causas e efeitos um tsunami na China.
Na infância vivera numa redoma fechada e vedada à vida e a representação que construíra de si própria era irreal como uma imagem reflectida em águas paradas. Postava-se diante do espelho envolvida em lençóis brancos e sonhava…
Era sujeita a frequentes dores de cabeça cuja origem não discernia e suspeitava vagamente dos seus sentimentos que contrariava por educação.Tinha lampejos de verdadeira crueldade e não se sabia maldosa. Agia por impulsos, sacudidamente, sem pensar. O pensar, um pensar autónomo que exigisse algum esforço de concentração era completamente adverso ao seu carácter manso e cordato à superfície. Era tímida, o que contrariava a sua ânsia infantil de desmedido e grandeza.
Aos quinze anos, desejou ter uma alma elevada, à medida das suas ambições e passou a controlar e contrariar os seus apetites toscos. Assimilara as suas normas de comportamento nas obras dos românticos, Walter Scott ou qualquer outro inglês oitocentista, romances que lhe agradavam tanto como as aventuras de Júlio Verne ou os relatos fantásticos de Jonathan Swift. Tais escapadelas ao mundo da ficção, somados aos seus infindáveis devaneios foram-lhe fatais, ou para utilizar um dos instrumentos da parafernália romântica, funestos. A fatalidade, aliás, estava-lhe no sangue. Não era a vida fatal para todos?
Durante algum tempo, entreteve-se escrevendo um diário, mas depressa desistiu da empresa. Ocorria-lhe apenas relatar coisas banais, a maneira como as amigas se vestiam, o olhar um pouco mais demorado que algum rapaz lhe dedicara, coisas de menina, nada das emoções sobressaltadas que a sua imaginação lhe sugeria. Não fazia a mínima ideia do que queria e a vida quotidiana aborrecia-a.
Tinha a tez pálida dos citadinos, cabelos negros e lisos, era magra e um aspecto simultaneamente tosco e atraente como uma obra incompleta que pedisse mãos de artista. Vestia-se mal e despreocupadamente. Às vezes tinha veleidades de menina caprichosa e gostava de aparecer com velhos chapéus e colares comprados na feira da Ladra, lembranças perdidas de tias que nunca tivera. Sentia em si vagamente um grande talento de actriz e, inconscientemente, reproduzia sem cálculo, aquilo que a imaginação ávida fixara e que depois esquecia. Esse enorme vácuo que parecia ser o cerne da sua personalidade era continuamente alimentado por novas imagens. Entrava facilmente em depressão e permanecia durante horas, absorta, olhando para o vazio, ouvindo vagamente as vozes discordantes dos seus pensamentos ou tentando localizar as sensações estranhas e desconhecidas que como nuvens corriam pelo seu cérebro, mas que não identificava consigo própria. Aliás ser ela própria não era o mais importante. O importante era sempre a impressão que poderia causar nos outros. No fundo a sua vida não fazia sentido e ela sabia-o. Por isso disfarçava e fingia. Continuamente, parar era impossível, significaria o colapso mortal do seu sistema de vida.
Suicidou-se, ainda jovem, aos trinta e dois anos, ao som das bombas que rebentavam em Lisboa, corria o ano de 1923, numa noite límpida de Março. Paz à sua alma.

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